Pesquisas mostram que substâncias enteógenas — chamadas erroneamente de alucinógenas — podem ser tratamentos altamente eficazes para ansiedade, depressão, vício e trauma. Aqui está tudo que você precisa saber:

Drogas psicodélicas não são ilegais?

De acordo com as leis brasileiras, a maioria deles são, mas há movimentos para legalizar ou descriminalizar as drogas que está ganhando força. Os “cogumelos mágicos” são de venda livre no país apesar da psilocibina isolada ou sintética — o ingrediente ativo deles — ser uma substância controlada pela Anvisa. Há movimentos no Canadá e nos EUA para a liberação dos cogumelos e da psilocibina, ambos proibidos nos países em âmbito federal. “Todo o trauma não resolvido”, disse Strelaeff, “ele voltou e eu estava além de aterrorizado, tremendo incontrolavelmente e chorando.” Ela disse que a terapia com psilocibina a ajudou a conquistar “aquelas memórias difíceis” e hoje ela “não tem medo de p… nenhuma”.

Como funciona a terapia psicodélica?

Os participantes geralmente tomam cogumelos mágicos ou LSD em um ambiente relaxante, deitados com vendas e fones de ouvido ligados, ouvindo música. Supervisores treinados os encorajam a “ir para dentro e experimentar o que surgir”, disse Alan Davis, que estuda psicodélicos na Universidade Johns Hopkins. As “bad trips” ou viagens negativas de psilocibina são raras — pesquisadores realizaram 500 sessões sem observar quaisquer “efeitos adversos graves” — mas eles podem ocorrer. Os defensores dizem que o controle cuidadoso das doses, a supervisão e as variáveis controladas são muito importantes. As sessões de psilocibina geralmente duram entre quatro e seis horas, enquanto as sessões de LSD duram 12. Robin Carhart-Harris, que dirige o Centro de Pesquisa Psicodélica do Imperial College, em Londres, teorizou que tais sessões podem “resetar” o cérebro de uma forma semelhante a uma experiência espiritual intensa, reporta o The Week.

O que diz a neurociência?

Psicodélicos têm mostrado estimular o crescimento de novos neurônios e criar conexões mais complexas que permitem que várias áreas distantes do cérebro se comuniquem entre si. Padrões rígidos de pensamento são quebrados. Ao mesmo tempo, essas drogas dissolvem temporariamente o ego — o sentido de si mesmo que nos separa de tudo mais — e produzem um sentimento “oceânico” de unidade com o universo, razão pela qual muitas sociedades indígenas as têm usado em práticas espirituais. “Eu não sabia onde eu terminava e meu entorno começou”, disse um paciente a Michael Pollan, autor de um livro sobre terapia psicodélica, Como Mudar a Sua Mente.

Por que o ego desaparece?

Experimentos mostraram que os psicodélicos diminuem o fluxo sanguíneo e o consumo de oxigênio em uma área do cérebro chamada modo padrão de rede neural que os cientistas apelidaram de “rede eu”, age como um porteiro da consciência, filtrando informações para que o cérebro possa operar de forma mais eficiente. À medida que o modo padrão é desligado, as pessoas experimentam uma súbita abertura dos portões da percepção, ideias e visões, com alucinações vívidas que dão aos participantes novas percepções sobre si mesmos e sobre a própria vida.

Quais são os benefícios?

Os pesquisadores dizem que eles podem ser profundos e abrangentes. Um estudo da Johns Hopkins de 2014 descobriu que 80% dos fumantes submetidos à terapia assistida por psilocibina relataram que permaneceram livres de fumo seis meses depois. “O universo era tão grande, e havia tantas coisas que você podia fazer e ver nele que se matar parecia uma ideia estúpida”, disse um fumante a Pollan. Um estudo de 2016 relatou que 83% dos pacientes com câncer com depressão e ansiedade tiveram aumentos profundos na satisfação ou bem-estar na vida após uma única dose de psilocibina. Cerca de dois terços dos participantes do estudo classificaram a terapia entre os “cinco eventos mais espiritualmente significativos” em suas vidas. Um ateu lembrou-se de sentir-se “banhado no amor de Deus”. O medo da morte muitas vezes desaparece.

Por que essas drogas são ilegais?

Durante a década de 1950, alguns psicólogos pensaram que os psicodélicos poderiam revolucionar o tratamento de saúde mental. Mas quando o uso recreativo dessas substâncias poderosas tornou-se popular entre os hippies na década de 1960, provocou uma reação, com histórias de “bad trips” e surtos psicóticos. Em 1965, o governo federal proibiu drogas psicodélicas, e as empresas pararam de produzi-las para pesquisa. Timothy Leary, o psicólogo rebelde que encorajou os jovens a “ligar, sintonizar e desistir”, foi marcado como “o homem mais perigoso da América” pelo presidente Richard Nixon. Mas depois de décadas de uso underground, a pesquisa sobre seu valor passou por um renascimento. Em 2018, a FDA (EUA) designou a psilocibina como uma “terapia inovadora” para depressão e ansiedade. Um ano depois, a Universidade Johns Hopkins lançou o Center for Psychedelic and Consciousness Research (Centro pra Pesquisa Psicodélida e da Consciência) — no mesmo ano em que o Imperial College, em Londres, lançou o seu próprio. “A [idéia] dos anos 60 que os psicodélicos ajudariam a desvendar os segredos da consciência”, diz Pollan, “pode não ser tão absurda afinal.”

Estudando MDMA e DMT

Outros psicodélicos além de LSD e psilocibina mostraram promessa terapêutica. MDMA, há muito conhecido como “ecstasy”, ou “bala”, interage com muitos dos mesmos neurotransmissores no cérebro com as drogas convencionais para ansiedade. Estudos mostram que inspira sentimentos de “empatia e vínculo” que podem ser incorporados ao cotidiano com a ajuda de um terapeuta. Pesquisadores da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos, com sede na Califórnia, já concluíram os ensaios da Fase 2 de psicoterapia assistida por MDMA para uso no tratamento de transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), e estão planejando testes de Fase 3. Estudos descobriram que a ayahuasca, uma bebida psicoativa de várias plantas da Amazônia, também pode ter efeitos benéficos. O Imperial College está estudando como o DMT, ou dimetiltriptamina, conhecida como “molécula espiritual”, pode ajudar pacientes que sofrem de depressão e ansiedade. Durante as intensas sessões de 20 minutos sobre a droga, “[os pacientes] meio que vão em uma jornada para [dentro] si mesmos”, disse a Dra. “Às vezes pode ser um pouco traumático.” Memórias dolorosas e reprimidas e sua conexão com os problemas atuais podem ser reveladas. Routledge e outros terapeutas aconselham fortemente contra experimentar substâncias psicodélicas fora de um ambiente controlado, alertando que as experiências podem ser esmagadoras.

 

Fonte: HypeScience/ Marcelo Ribeiro