Exemplo mundial de rapidez na inocupação da população, país reabre economia e debate sobre possíveis privilégios para quem se imunizou. Mas parte da população ainda resiste à vacina.

Durante muitos anos, todas as terças-feiras, as amigas se reuniam para jogar jogos de tabuleiro. Mas então veio a pandemia de coronavírus, e todas ficaram sentadas sozinhas em casa. Isso até agora: “É realmente a primeira vez desde março que nos encontramos. É inacreditável e uma sensação boa”, comemora Ruth Rogers. A israelense-americana de 88 anos pôde convidar novamente pela primeira vez suas amigas para seu apartamento em Jerusalém.

No ano passado todo, elas só podiam jogar o jogo virtualmente, pelo computador. “É bom que todas estejam bem e que tenham passado o ano com boa saúde. Mesmo que tenhamos ficado muito solitárias. E não esquecemos como é nossa aparência, mesmo que todas precisemos com urgência de um corte de cabelo”, diz Rogers, sorrindo.

As quatro amigas sentiram mesmo falta de se sentar à mesa juntas novamente. “Pela primeira vez, me sinto livre. É maravilhoso poder falar diretamente com as pessoas”, sublinha Esther Taragin.

Ruth e suas amigas, com entre 84 e 95 anos, estiveram no primeiro grupo a receber em Israel a vacina da Biontech-Pfizer. “Graças a Deus, meu marido e eu continuamos saudáveis, ambos tomamos as vacinas e somos orgulhosos donos do passaporte verde, mesmo que ainda não possamos ir a lugar algum com ele”, diz Judy Feld.

O “Passe Verde”, emitido pelo Ministério da Saúde israelense, vale como um passe de vacinação e deve, no futuro, também permitir certas liberdades para os vacinados.

Debate sobre reabertura
À medida que a campanha de vacinação continua, o governo israelense vai relaxando gradualmente as restrições impostas nas últimas semanas pelo lockdown. O pequeno país com nove milhões de habitantes é considerado um exemplo positivo de rapidez da vacinação e dos estudos decorrentes da campanha, que comprovam a eficácia da vacina quase em tempo real. No entanto, a taxa de infecção permaneceu alta – especialmente entre aqueles com até 60 anos de idade. Só no último fim de semana que os números começaram a diminuir lentamente. O número de pacientes gravemente doentes de covid-19 em hospitais ainda é alto.
O debate público agora se volta para a reabertura do país e sobre os direitos e obrigações daqueles que foram vacinados e daqueles que ainda não querem ser vacinados. Em fevereiro, o número de vacinações diárias diminuiu ligeiramente. Em janeiro, até 200 mil pessoas foram vacinadas diariamente. Mas essa taxa caiu em cerca de 50%, segundo dados do Ministério da Saúde israelense.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que fez da campanha de vacinação um tema eleitoral, alertou no domingo que mais de meio milhão de israelenses com mais de 50 anos de idade ainda não foram vacinados.

“Lembro de um detalhe dramático dos dados: 97% das mortes e 93% dos casos graves estão neste grupo”, disse o premiê. Desde o início da pandemia, mais de 5.400 israelenses morreram de covid-19. Em janeiro, foi registrado o maior número de mortes no país.

Vacinação rápida e ceticismo
Quatro milhões de israelenses foram vacinados até agora, dos quais cerca de 2,6 milhões receberam ambas as doses. Desde fevereiro, qualquer pessoa com mais de 16 anos pode ser vacinada. “Estamos tentando ver quais atitudes as pessoas têm em relação à vacina. Também há muitas notícias falsas por aí”, afirma Boaz Lev, chefe da força-tarefa de vacinação do Ministério da Saúde de Israel. “Isso nos preocupa. Mas vai demorar um pouco antes que possamos ver como as pessoas se comportam.”

O Ministério da Saúde israelense criou recentemente uma unidade para conter informações falsas e mitos de conspiração na internet. Outras campanhas de informação têm como alvo certos segmentos da população, como israelenses palestinos ou judeus ultraortodoxos, entre os quais o ceticismo em relação à vacina costuma ser mais alto.

“Recentemente, falei com rabinos que dirigem escolas religiosas sobre a vacina, sua segurança e eficácia. Também conversamos sobre falsas informações que circulam sobre questões envolvendo fertilidade e outras questões”, afirma Lev.

Benefícios para vacinados?
Mas também existem céticos quanto à vacinação entre os israelenses não religiosos mais jovens. Michal, mãe de dois filhos, recebe quase todos os dias convites para a vacinação por SMS do seu plano de saúde.

“Acho que deve ser uma decisão pessoal. Estou feliz que a vacinação exista”, diz. “Mas acho que não preciso. Tenho 41 anos, sou jovem e saudável.” Ela afirma que simplesmente tem uma atitude diferente em relação à medicina e rejeita estritamente qualquer teoria de conspiração.

Sua família e amigos, todos vacinados, não concordam com a decisão dela. “No momento, parece que há pressão de todos os lugares para se vacinar”, diz Michal. Mas ela ressalta que não descarta se vacinar em um futuro próximo.

Muita coisa dependerá das próximas decisões do governo e das seguradoras de saúde. Aos domingos, museus, shopping centers, bibliotecas e lojas devem ser reabertos para todos. Já academias de ginástica, piscinas, eventos culturais e esportivos apenas devem ser acessíveis aos portadores do “Passe Verde”.

As viagens internacionais também podem depender do certificado de vacinação. No momento, porém, o aeroporto Ben Gurion de Israel ainda está fechado – com exceção de alguns voos de retorno para cidadãos israelenses. De acordo com relatos da mídia, o governo também está examinando se é possível legalmente exigir que certos profissionais – como professores ou motoristas de ônibus – sejam vacinados ou testados para o vírus a cada 48 horas. No momento, porém, eles estão apelando oficialmente à solidariedade geral, como o ministro da Saúde, Yuli Edelstein, no Twitter: “Você tem que decidir se quer se se juntar aos esforços ou permanecer para trás, sozinho”.

Com informações da Deutsche Welle